O teste da orelhinha entrou no cotidiano das maternidades brasileiras há mais de uma década, mas ainda gera dúvidas entre gestores e famílias. A Portaria GM/MS nº 2.776, de 2013, instituiu o Programa Nacional de Triagem Neonatal e ampliou a cobertura da emissões otoacústicas evocadas — o exame que detecta, de forma rápida e não invasiva, possíveis alterações auditivas em recém-nascidos. O que acontece depois de um resultado alterado, porém, varia muito de um município para outro.
Entre março e maio deste ano, visitamos três hospitais públicos — em Fortaleza, Campinas e Belém — e conversamos com coordenadores de vigilância em saúde auditiva, fonoaudiólogos e mães que passaram pelo processo de encaminhamento. O retrato que emerge é de avanços reais na cobertura do teste, mas de fragilidades persistentes na continuidade do cuidado.
Cobertura e registro
Segundo dados preliminares do Ministério da Saúde compilados para 2025, mais de 85% dos nascimentos em maternidades da rede pública realizaram a triagem auditiva antes da alta hospitalar. O índice representa progresso em relação à década anterior, quando o exame dependia fortemente de iniciativas estaduais desconectadas.
A padronização dos registros, contudo, ainda é irregular. Em dois dos hospitais visitados, os resultados eram anotados em prontuário físico sem integração ao Sistema de Informação em Saúde. Isso dificulta o monitoramento de casos que não retornam para a avaliação diagnóstica — um problema conhecido na literatura de saúde pública como "perda de seguimento".
O caminho após o teste alterado
Quando a triagem indica possível alteração, a criança deve ser encaminhada para avaliação audiológica diagnóstica, preferencialmente antes dos três meses de vida. A intervenção precoce — seja com aparelho auditivo, implante coclear ou estimulação adequada — tem impacto direto no desenvolvimento da linguagem.
Em Fortaleza, a coordenadora de um programa municipal relatou tempo médio de 47 dias entre o teste alterado e a confirmação diagnóstica. Em Belém, famílias entrevistadas mencionaram esperas superiores a quatro meses. A diferença reflete a disponibilidade de audiologistas e a existência — ou não — de fluxos pactuados entre maternidade, atenção primária e centro de referência.
"O teste é a porta de entrada, mas a porta seguinte muitas vezes está em outro prédio, com outra fila", resumiu uma fonoaudióloga que atua na rede estadual do Ceará. Ela pediu para não ser identificada porque não tinha autorização institucional para falar em nome do hospital.
Interior e equidade
A disparidade entre capitais e interior aparece com nitidez nos dados regionais. Estados com programas de teleaudiologia — consultas remotas para confirmação diagnóstica — apresentam menores taxas de abandono do seguimento. O Amazonas e o Piauí iniciaram pilotos nesse formato em 2024; os resultados ainda estão sendo avaliados.
Para mães como Juliana Alves, de 29 anos, que teve o teste alterado no hospital onde nasceu seu filho em Ananindeua (PA), a distância até o centro de referência em Belém significou custos de transporte e dias de trabalho perdidos. "Ninguém me explicou direito o que o exame queria dizer. Só disseram para ir ao outro hospital", relata.
O que gestores apontam
Entre as demandas recorrentes nas entrevistas estão: capacitação de equipes de enfermagem para orientar famílias, integração dos sistemas de informação e ampliação da oferta de fonoaudiologia na atenção básica para acompanhamento longitudinal.
A Portaria 2.776 estabeleceu diretrizes, mas a implementação depende de pactuações locais. Especialistas ouvidos pela Voz Pública defendem que os consórcios intermunicipais de saúde incluam a vigilância auditiva neonatal como eixo explícito de planejamento — e não apenas como item acessório em relatórios anuais.
Em resumo
O Brasil avançou na cobertura da triagem auditiva neonatal no SUS, mas a equidade no seguimento diagnóstico e terapêutico permanece desafio. Famílias em regiões com menor densidade de especialistas enfrentam barreiras que o exame em si não resolve. A próxima etapa da política pública, segundo gestores e profissionais ouvidos, é fechar o ciclo: da maternidade à reabilitação, sem que crianças se percam no caminho.
Atualizado em 12 de junho.