A Política Nacional de Atenção Básica prevê equipes multiprofissionais nas unidades de saúde da família, mas a presença efetiva de fonoaudiólogos na atenção primária ainda é exceção em grande parte do país. Em algumas cidades, porém, modelos de integração começam a mostrar resultados mensuráveis — menos encaminhamentos tardios, mais resolução no primeiro contato e melhor articulação com escolas e creches da rede pública.

Esta reportagem acompanhou rotinas em duas unidades: uma no bairro de Casa Amarela, em Recife, e outra na regional Noroeste de Belo Horizonte. Os contextos são distintos — uma capital do Nordeste com alta demanda por triagem auditiva, uma metrópole do Sudeste com histórico de núcleos de apoio à saúde da família —, mas compartilham uma lógica: a fonoaudiologia deixou de ser "especialidade de última instância" e passou a atuar antes que problemas de linguagem se cronificassem.

Como funciona o fluxo

Em Recife, o fonoaudiólogo atende dois dias por semana na UBS, em turnos compartilhados com outras unidades do distrito. A triagem inicial fica a cargo dos agentes comunitários de saúde, que aplicam um protocolo simplificado de marcos do desenvolvimento da linguagem durante visitas domiciliares. Crianças sinalizadas são agendadas para avaliação fonoaudiológica em até 15 dias.

"Antes, a criança chegava na especialidade com três ou quatro anos, quando o atraso já estava evidente para todos", conta a fonoaudióloga responsável pelo programa. "Hoje, muitos casos são acompanhados aqui mesmo, com orientação à família e articulação com a creche."

Em Belo Horizonte, o modelo inclui grupos de estimulação para pais e cuidadores — encontros quinzenais conduzidos pela fonoaudiologia em parceria com psicologia da UBS. A proposta não substitui terapia intensiva quando necessária, mas reduz a inércia: famílias que recebem orientação prática tendem a buscar retorno mais cedo.

Números preliminares

Dados internos da Secretaria Municipal de Saúde de Recife, compartilhados com a Voz Pública sob pedido de acesso à informação, indicam queda de 23% nos encaminhamentos para fonoaudiologia em centros de especialidades entre 2023 e 2025, no distrito onde o programa piloto está ativo. Belo Horizonte ainda consolida indicadores comparáveis, mas gestores locais citam aumento no número de consultas resolutivas na própria unidade.

Os números devem ser interpretados com cautela: fatores como mudanças no sistema de regulação e campanhas de conscientização também influenciam o perfil de encaminhamentos. Ainda assim, profissionais de ambas as cidades relatam mudança qualitativa no tipo de demanda — menos casos "só para pedir laudo" e mais acompanhamento longitudinal.

Desafios persistentes

A escassez de fonoaudiólogos no mercado de trabalho público é o obstáculo mais citado. Concursos municipais e estaduais demoram a sair; muitas vagas ficam temporariamente preenchidas por contratos precários. A rotatividade prejudica a construção de vínculo com a comunidade — um dos pilares da atenção primária.

Outro ponto é a formação. Nem todos os cursos de graduação em fonoaudiologia enfatizam o trabalho em equipe na UBS. Profissionais recém-formados às vezes chegam com expectativa de atuação hospitalar ou clínica privada e precisam de período de adaptação para a lógica territorial da saúde da família.

O papel da escola

Nas duas cidades, foi estabelecido canal de comunicação entre UBS e escolas municipais para crianças em acompanhamento fonoaudiológico. Professores recebem orientações gerais — nunca diagnósticos detalhados sem autorização familiar — sobre como apoiar a comunicação em sala de aula.

Uma diretora de escola em Recife mencionou que, antes desse diálogo, muitas crianças com dificuldade de fala eram encaminhadas à psicologia escolar sem que a origem do problema fosse investigada. "Agora sabemos quando existe um plano de cuidado na UBS e podemos alinhar expectativas com a família", disse.

Perspectivas

Especialistas em políticas de atenção básica defendem que a fonoaudiologia seja incluída explicitamente nos indicadores de desempenho das equipes multiprofissionais — não como meta numérica rígida, mas como elemento de monitoramento do desenvolvimento infantil.

Para as famílias atendidas nos programas acompanhados, a diferença mais tangível é a proximidade: o profissional que avalia a criança é o mesmo que atende a mãe na hipertensão, que conhece o território, que pode ser encontrado no dia da vacina. Na saúde pública, essa continuidade ainda é o que separa um encaminhamento de papel de um cuidado efetivo.

Publicado em 5 de junho.