O fornecimento de próteses auditivas pelo SUS é um direito garantido por portarias do Ministério da Saúde, mas a experiência de quem precisa do aparelho varia conforme o estado, o município e até o centro de referência escolhido. Entre laudos, filas de regulação, sessões de adaptação e manutenção, o caminho pode levar meses — ou ser relativamente ágil, quando há articulação entre os serviços.

Ouvimos usuários em Porto Alegre, Salvador e Goiânia, além de fonoaudiólogos que atuam na reabilitação auditiva pública. Os relatos não configuram amostra estatística, mas iluminam como a política se materializa — ou trava — no cotidiano.

Critérios de acesso

De modo geral, o usuário precisa de avaliação otorrinolaringológica e audiológica que caracterize a perda auditiva e indique a necessidade de amplificação sonora. Crianças e idosos costumam ter prioridade nas filas de regulação, mas a regra varia conforme o sistema estadual de regulação.

Em Goiânia, uma aposentada de 67 anos relatou ter recebido o aparelho seis meses após o laudo. Em Salvador, o pai de uma menina de quatro anos esperou quase um ano — período em que, segundo ele, a criança "perdeu tempo de escuta" que poderia ter sido aproveitado na pré-escola.

Gestores ouvidos em Porto Alegre afirmam que a integração entre atenção primária e centro de reabilitação auditiva reduziu o tempo médio de espera para adultos com perda bilateral moderada a grave. O dado não foi verificado de forma independente pela reportagem.

Adaptação fonoaudiológica

Receber o aparelho é apenas o início. A adaptação fonoaudiológica — ajuste de ganho, orientação sobre uso e acompanhamento — determina se o dispositivo será efetivamente utilizado. Alguns serviços oferecem séries de sessões; outros, por limitação de agenda, concentram a orientação em um ou dois encontros.

Uma fonoaudióloga que trabalha em hospital público no Rio Grande do Sul descreveu a frustração de ver pacientes abandonarem o aparelho por desconforto ou expectativa irreal sobre o resultado. "Sem acompanhamento, o SUS entrega tecnologia que vira gaveta", resumiu.

Manutenção e pilhas

A manutenção de próteses auditivas — limpeza, reparos, troca de componentes — também é responsabilidade do sistema quando o usuário foi cadastrado no programa. Na prática, usuários relatam dificuldade para agendar revisões e obter pilhas ou baterias recarregáveis sem deslocamento repetido ao centro de referência.

Em Salvador, um grupo de usuários organizou mutirão informal para trocar informações sobre prazos e documentação necessária — um sinal de que a comunicação institucional ainda falha em muitos pontos.

Implante coclear e limites da política

Para casos de surdez profunda em que a prótese convencional não é suficiente, o SUS também financia implante coclear em centros credenciados. O processo é mais complexo: exige equipe multidisciplinar, cirurgia e longo período de reabilitação. As filas são, em geral, mais longas que as de aparelhos auditivos.

Famílias entrevistadas em Goiânia mencionaram apoio de associações de pais para navegar a burocracia — um recurso valioso, mas que reforça a desigualdade entre quem tem rede de informação e quem não tem.

O que usuários pedem

Entre as demandas mais frequentes nos relatos estão: transparência sobre posição na fila, padronização da oferta de sessões de adaptação, pontos de manutenção mais próximos da atenção básica e materiais informativos em linguagem acessível sobre cuidados com o aparelho.

A reabilitação auditiva no SUS avançou na incorporação de tecnologias, mas a experiência do usuário ainda depende fortemente da organização local. Como bem disse um idoso ouvido em Porto Alegre: "O aparelho é do governo, mas o ouvido é meu — e precisava de alguém para me ensinar a usar."

Publicado em 28 de maio.